Cris Mare. MEUS DEMÔNIOS SÃO COMO FERIDAS ABERTAS QUE SEMPRE RETORNAM. 02 de novembro de 2026.
MEUS DEMÔNIOS SÃO COMO FERIDAS ABERTAS QUE SEMPRE RETORNAM
Era verão e estava no início da década de 1990, um dia claro e ensolarado, me encontrava ansiosa para o primeiro dia de aula. Minha mãe separou um conjuntinho rosa, enfatizei que gostaria de ir com uma calça jeans e uma camiseta branca, isso me deixaria parecida com as demais crianças, minha mãe me vestia como se eu fosse uma bonequinha de porcelana, eu gostava, mas a saia não me permitiria correr e brincar.
Em seguida , arrumou o meu cabelo, não lembro com exatidão, acredito que ela deve ter cumprido o ritual, dividiria simetricamente as duas partes do meu cabelo, com a ajuda de um pente, desenharia longos cachos, e finalizaria com dois laços idênticos.
Havia um misto de emoções, primeiro dia de aula, colegas novos, a primeira série soava como um mundo novo, será que meus colegas iriam reparar nos meus laços novos? Os meus cadernos eram lindos, pedi uma capa diferente para cada matéria e ganhei de uma das tias um guardanapo novo, para colocar em cima da mesa. Essa era a cidade que eu nasci no sul do Brasil, dos 3 aos 6 anos havia morado na Região Centro-Oste, diziam que em Cascavel, fazia frio, porém , estávamos em pleno verão, sem rio, isso me deixava muito chateada. Não haveria nenhum rosto conhecido, salvo da tia Jô, e ainda não sabia se isso era bom ou ruim. Ao caminhar até a escola, senti falta dos meus antigos amigos, da pequena escola, das brincadeiras divertidas na rua, fiquei pensando como estavam e se sentiriam falta de mim.
Ao chegar na sala, meus amigos fizeram um pandemônio, alguns apontavam negra, riam entre si, outros comentavam com entusiasmo sobre meu cabelo, nariz, me comparavam a uma primata, até então, nunca precisara pensar na cor da minha pele, na minha antiga escola não era algo que as crianças levassem em consideração, de repente a palavra doce e carinhosa: "a neguinha do pai", ou aquele samba, que ele cantava constantemente para mim: "Charmosa, tão dengosa...."
Todas as palavras bonitas sobre mim, que serviam como acalanto, foram se transformando em um escárnio, as palavras ao serem vociferadas por eles, com a mesma violência que eram disparadas, prendiam- se em minha garganta,descobri assim que ser negra não deveria ser algo muito bom, toda vez que ouvia a palavra "Negra" na boca dos meus colegas, soava como um xingamento, só não entendia o porquê, eles eram da mesma cor que a minha mãe, alguns bem mais claros, era difícil compreender o que estava acontecendo. Eu me senti tonta, não sabia o que fazer, aquele momento foi tomado por uma imensa escuridão, o corpo parecia perder a materialidade e foi caindo como quem despenca do alto de um arranha céu, aprendi a sufocar as lágrimas, eu não queria voltar nunca mais para aquele lugar e desejei com todas as minhas forças que a minha mãe aparecesse ali.
Tentei não retornar, chorei, implorei, fiz inúmeras promessas: Mãe, posso trabalhar todos os dias contigo e nunca mais voltar para aquele lugar, ela afirmou que lugar de criança era na escola, estudar era importante e essas coisas de mãe, ela parecia não entender o quanto aquele lugar era horrível e que meus colegas brancos não me queriam ali, ainda assim repetia: aquelas crianças são iguais a você, eu não respondia, mas lá no fundo pensava, como podem ser iguais a mim?
Gostava de sentar próximo à professora, me sentia mais protegida, o recreio era quase sempre um momento ruim, passavam por mim com certo nojo, com o tempo além de aprender a camuflar as lágrimas, também embrulhei a dor, não é que não doesse, mas aquelas palavras chegavam anestesiadas, tentava não escutar, ao comentar com a professora, ela dizia: "depois conversamos sobre isso", esse depois nunca chegara.
Descobri que nem todas as crianças brancas eram iguais, ou me odiavam, porém, tinham medo. Então, a voz mais alta e ressonante era a dos colegas que me recepcionaram naquele primeiro dia de aula. Fomos crescendo, cada qual em suas posições, mundos em que as experiências parecem apartadas, na verdade sim e não, ambos estávamos no espaço público da escola, entretanto, cada criança trazia consigo repertórios culturais da própria família, nas simulações infantis, cada qual vai compondo papéis. Éramos colocados no mesmo espaço, mas os corpos de uns eram mais valorizados que outros, assim como a cultura, os sobrenomes.Quando me chamavam de neguinha do saravá, me colocaram diante de uma cultura que nunca tinha tido contato. Saravá nas religiões de matriz africana é apenas uma saudação. Como eu poderia saber, era uma criança de 6 anos, cuja família estava imersa em tradições cristãs.
Édouard Glissant, em seu livro "Introdução a uma Poética da Diversidade" (2013), recorda que em espaços coloniais, elementos culturais colocados em relação, alguns são inferiorizados em relação a outros, deixando um resíduo amargo...
Sempre me lembravam, como se fosse possível esquecer, que eu não era uma igual, e a expressão "de onde você é?"Reforçava o sentimento, até entender que não pertencer era bom. Afinal, eram tão mesquinhos, porque eu ia querer ser igual a eles?
Ao chegar na adolescência compreendi que toda vez que se deparavam com algo novo, principalmente quando sentiam medo, apelavam para o mesmo roteiro, uma vez e outra construíam o "negro da vez". Percebem, o negro aqui, torna-se sinônimo de raça, um outro a ser desunanizado. Viciados pelo ódio e violência,se antes eram tão grandes, passei a vê-los como são: pequeninos, traçaram a rota de tudo o que eu não queria ser.
Já adulta me pergunto uma e outra vez, como foi se construindo o coração dessa gente? Por que precisam desesperadamente de alguém que possam humilhar? Do que vocês têm tanto medo? Os colegas da escola cresceram, são mães e pais de família, professoras, policiais, jornalistas, psicólogos, vereadoras, do sul do meu Brasil. Gente de todo o tipo, talvez tenham tido oportunidade de transformar- se, refrescar as ideias, posto que ideias são multaveis tal qual areia movediça.
Alguns sim, outros nem tanto, em pleno 2026, percebemos que uma parcela continua a frequentar esse lugar infimo e mesquinho que lhes produz profundo conforto, toda vez que sentem medo, e que suas zonas de interesse são questionadas, na vida adulta as memórias intimamente construídas pelos afetos familiares somam-se aos interesses materiais e de classe, na dúvida voltam a mesma casa comum. Afinal, em uma sociedade em que a humilhação e a violência são naturalizadas, quem nos educa a ver e reparar essa miserabilidade.
Ao retornar às memórias, sinto que as feridas das quais vo costurando aqui dentro, são sempre reabertas. É como a maldição de Sisifo, rei de Éfira, a empurrar uma enorme pedra morro acima, sabendo que ela voltará a rolar morro abaixo..
Dito de outro modo, nessa dialética quanto mais gritam, quanto mais humilham, parece que a brutalidade vai tomando conta do espaço em que deveria habitar a própria humanidade, revelando muito mais sobre si mesmo, do que sobre os humilhados....
Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.
José Saramago
02 de novembro de 2026

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